O ENSINO DOS VALORES EM CONFÚCIO


Ramiro Marques
ESE do Instituto Politécnico de Santarém

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A Vida
Pouco se sabe acerca de Confúcio (Kung-fu-tzu). Terá nascido em 551 a.C. e terá morrido em 479 a.C. Viveu, portanto, 72 anos. Sabe-se que era de origem nobre, mas por circunstâncias desconhecidas a sua família era bastante humilde. Nasceu no estado de Lu, na moderna Xantum, na época em que o regime imperial entrava em decadência, sacudido por lutas senhoriais e corrupção generalizada. A China Imperial passava com grandes e profundas mudanças, na economia e na sociedade. A criminalidade, a miséria e o fosso entre os muito ricos e os muito pobres cresciam. Na sua juventude, Confúcio arranjara uma reputação de amante do conhecimento e respeitador das tradições antigas. Era conhecido como um jovem educado, cortês e justo. Viajou muito e estudou durante vários anos na capital imperial de Zhou, onde teve oportunidade de conhecer Lao Zi, o fundador do Daoismo. Com o regresso a Lu, Confúcio tornou-se famoso como professor. Com a idade de 35 anos, viu a sua carreira de professor interrompida por uma prolongada e sangrenta guerra, conduzida pelo Duque Chao do estado de Lu. Terá sido durante esse período que Confúcio foi chamado a exercer funções políticas, por um breve período, como conselheiro político do Duque Chao. Cansado das intrigas da Corte, Confúcio troca a vida política pelo ensino. Aos 50 anos de idade, volta a exercer funções políticas, como Ministro da Justiça do estado de Lu e aos 56 anos alcança o lugar de Primeiro Ministro. Por volta dos 60 anos de idade, Confúcio abandona definitivamente a vida política e viaja durante anos pela China acompanhado dos seus discípulos. Durante as suas viagens é preso e vê-se envolvido em lutas de senhores da guerra rivais. Aos 67 anos de idade regressa a Lu, passando o resto dos seus dias a ensinar e a escrever. Morreu com 72 anos. Confúcio considerava-se mais como um transmissor das crenças antigas do que como um criador de teorias. Em jovem, passou algum tempo como ministro do estado, mas a maior parte da sua vida foi passada a ensinar. Viajou mais de dez anos por vários estados da China Imperial, servindo como conselheiro político. Desiludido com a corrupção reinante nas cortes dos senhores feudais, Confúcio regressou a Lu onde passou o resto da sua vida rodeado de um conjunto de discípulos devotados a quem lhe chamavam o Mestre. Terão sido os seus discípulos que escreveram Os Analectos, a única obra que é considerada um registo fidedigno do pensamento de Confúcio. Escrito há perto de 2500 anos, Os Analectos conheceram uma grande divulgação na China e foram objecto de traduções nas principais línguas do Mundo. O objectivo de Confúcio foi apresentar uma versão pura das antigas doutrinas, passadas de geração em geração na cultura Chou, de forma a dar corpo ao governo justo e benevolente. Confúcio acreditava que, algures no passado, teria havido uma idade mítica, na qual cada um conhecia o seu lugar e cumpria o seu dever. A finalidade de Confúcio era dar a conhecer os fundamentos éticos que permitissem um regresso a esse passado mítico, tão distante dos tempos conturbados que eram os seus. A expressão prática desse desejo era a forte predisposição de Confúcio para apoiar as instituições que assegurassem a harmonia, a justiça e a ordem: a família, a hierarquia, os anciãos e o Estado justo. O respeito pelo dever, pela hierarquia e pelos rituais seria capaz de produzir homens respeitadores da cultura tradicional, amantes do Bem e da Justiça, cumpridores dos deveres e das obrigações e reverentes para com as autoridades legítimas e os mais velhos.

Confúcio é, ainda hoje, o mais influente filósofo chinês. Os adeptos de Confúcio estão espalhados por Taiwan, Japão, Singapura, Coreia do Sul, Malásia e República Popular da China. Estima-se em mais de 400 milhões o número dos seus seguidores. Mencius (390 a.C.-305 a.C.) alarga e sistematiza a filosofia de Confúcio, tornando-se o seu discípulo mais destacado. Com a adopção da doutrina de Confúcio como a filosofia oficial do Estado, durante a Dinastia de Han, a influência de Confúcio, na China, tornou-se tão grande que o seu nome tornou-se sinónimo de intelectual e erudito. Durante a Dinastia Han, a doutrina de Confúcio e o pensamento dos seus seguidores tornaram-se as obras de referência para a realização dos exames públicos de acesso às magistraturas, ao funcionalismo público e à burocracia governamental.

A Obra
A maior parte dos trabalhos atribuídos a Confúcio, e em particular Os Analectos - foram escritos pelos seus discípulos após a sua morte. Há imensas traduções de Os Analectos, mas poucas credíveis, porque é extremamente difícil o respeito pelo original, já que a língua em que foram escritos sofreu muitas transformações. Para além de Os Analectos, são atribuídos a Confúcio ou aos seus discípulos A Grande Aprendizagem e A Doutrina do Meio.

Os Analectos encontram-se publicados em Portugal, na colecção Clássicos de Bolso da Europa-América. Se o leitor quiser ter acesso a traduções de Confúcio, terá de recorrer a livros em língua inglesa. Eis uma pequena lista:
Lin Yutang. (1995). The Wisdom of Confucius. Citadel
Shih-Ching. (1979). The Classic Anthology Defined by Confucius. Viking Penguim
Confucius. (1969). Analects, Great Learning and Doctrine of the Mean. New Directions
Se o leitor quiser ter acesso a comentários sobre o pensamento de Confúcio, terá de recorrer igualmente a obras em língua inglesa:
David Hall e Roger Ames. (1992). Thinking Through Confucius. Charles Tuttle
Liu Chen. (1986). The Confucian Way: A New and Systematic Study of the Four Books. Routledge
Tsai Chung. (1996).Confucius Speaks: Words to Live By. Anchor
Liu Wu-Chi. (1972). Confucius, His Life and Time. Greenwood
Karl Jaspers. (1996). Socrates, Buddha, Confucius and Jesus.
Harverst
Theodore de Bary. (1996).
The Trouble with Confucionism. Harvard
Tu Wei-Ming. (1996).
Confucian Traditions in East Asian Modernity: Moral Education and Economic Culture in Japan and the Four Mini-Dragons. Harvard.

Em Portugal, há duas edições de Os Analectos. Uma delas, com o título Os Analectos, Livros de Bolso, Publicações Europa-América. A outra, com o título Conversações, Editorial Estampa. Este último inclui uma interessante Introdução, assinada por Anne Cheng, com informações sobre a China no tempo de Confúcio, a biografia de Confúcio, a moral e a política em Confúcio e a herança de Confúcio.

A teoria moral
O Confucionismo constitui um código de conduta que guia e orienta o governo justo, as relações entre as pessoas, a conduta pública, a vida privada e a procura da rectidão. Os dois conceitos mais importantes da doutrina confuciana são o Li e o Jen. O Li são as cerimónias, a etiqueta, os rituais e os bons costumes. O Jen é a benevolência, a cortesia e a gentileza. A harmonia, a paz, a justiça e a ordem estariam asseguradas se todos praticassem o Li e o Jen. Confúcio acentua as virtudes da auto-disciplina e da generosidade. Sê rígido para contigo, mas benevolente para com os outros, tal é uma das principais máximas confucianas. Ser bom como um filho e obediente como um jovem é o que constitui a raiz do carácter da pessoa. Nunca exigir aos outros o que nós não estamos dispostos a fazer é a forma que Confúcio concebeu para formular a "regra de ouro": não faças aos outros o que não queres para ti. Há aqui semelhanças com a teoria da virtude em Aristóteles e até com o imperativo categórico de Kant. Trata os outros como um fim e nunca como um meio. Sê benevolente. O que é uma pessoa moralmente educada para Confúcio? No livro Os Analectos, dá-nos a seguinte resposta: "Eu conceberia que um homem recebeu instrução se ele aprecia homens de excelência enquanto outros homens apreciam belas mulheres, se ele se aplica ao máximo ao serviço dos seus pais e oferece a sua pessoa ao serviço do seu senhor e, se nas suas relações com os amigos, é digno de confiança no que diz, mesmo embora ele possa dizer que nunca foi ensinado" No Livro XIII, dirá: "enquanto em casa, conserva uma atitude respeitosa; quando a servir numa qualidade oficial, sê reverente; quando a tratar com outros, faz o melhor que te for possível" (Os Analectos, Livro XIII, 84). Mas Confúcio chama a atenção para a importância da constância das virtudes. Um comportamento errático, meramente oportunista e flutuando de acordo com as circunstâncias e os interesses, não é um comportamento virtuoso. Sendo certo que a moral se ensina através da instrução, também é verdade que o exemplo, o hábito e a reflexão exercem um papel primordial, de tal forma que uma pessoa que não recebeu instrução pode ser moralmente educada. A instrução, contudo, prepara a pessoa para a reflexão, ajuda a combater a rigidez e a inflexibilidade e ajuda a cultivar a humildade intelectual. Confúcio afirma que aquele que estuda é improvável que seja inflexível. A arrogância e o fanatismo são apanágio dos ignorantes: "o nobre está à vontade sem ser arrogante; o homem insignificante é arrogante sem estar à vontade" (Os Analectos, Livro XIII, 85). Obediente aos mais velhos, aos pais e àqueles de quem depende hierarquicamente, verdade e honestidade nas palavras, amigo dos amigos, reservado quanto baste e cumpridor dos ritos, tal é o homem nobre, o homem de carácter. "Aquele que é, por um lado, sincero e subtil e, por outro, amável merece ser chamado Nobre - sincero e subtil entre os amigos e amável entre os irmãos" (Os Analectos, Livro XIII, 86). Central na moral confuciana é a noção de respeito. O que é o respeito para Confúcio? "Ser respeitoso é próximo de ser observador dos ritos, o que possibilita uma pessoa a ficar isenta de desgraça e insulto. Se ao promover o bom relacionamento com parentes através do casamento, um homem consegue não perder a boa vontade dos seus próprios parentes, ele é digno de ser considerado como cabeça do clã" (Analectos, livro I, 13). O respeito pelos ritos, pelas tradições, pelos mais velhos e pelos pais é no pensamento de Confúcio o que o cumprimento do dever é no pensamento de Kant. A obediência é outro conceito chave para se compreender a moral confuciana. Ser filial é nunca deixar de obedecer, repete Confúcio nos Analectos. Deve-se obediência a quem? Em primeiro lugar aos pais, depois aos outros parentes mais velhos, de seguida aos nossos amigos mais velhos e, por último, a todos de quem dependemos hierarquicamente, na vida pública ou na vida profissional. O dever de obediência é acompanhado pela garantia da benevolência. Aqueles a quem devemos obediência só a merecem quando são benevolentes. Confúcio admite a revolta sempre que os governantes não são dignos de obediência pelos súbditos. E os governantes não são dignos de obediências quando não mostram benevolência. O governo benevolente é um governo justo e é o único capaz de manter o povo feliz e de assegurar a prosperidade. Um governo que reprime o povo mantém o povo afastado dos problemas, pode retardar a revolta, mas não é respeitado pelo povo. Um governo que recompensa os desonestos, promove a desonestidade: "levanta os rectos e coloca-os acima dos desonestos e o povo comum considerar-te-á um modelo. Ergue os desonestos e coloca-os acima dos rectos e o povo comum não olhará para ti como modelo" (Os Analectos, Livro II, 18). O que é uma pessoa moral? É aquele que não se desvia do caminho recto e que não deixa de fazer o que está correcto por falta de coragem. Confúcio afasta-se da noção, cara a Platão, de que a moral é do domínio do inteligível, da alma racional e da reflexão, aproximando-se, ao invés, da noção aristotélica de que a moral é a associação da sabedoria à conduta, do intelecto com a acção, do raciocínio com o hábito. No livro II dos Analectos, afirma: "Aos quinze anos dediquei o meu coração à aprendizagem; aos trinta assumi o meu lugar; aos quarenta fiquei livre de dúvidas; aos cinquenta compreendo o Decreto do Céu; aos sessenta o meu ouvido ficou afinado; aos setenta eu segui o desejo do meu coração sem ultrapassar a linha". A aprendizagem da moral é um processo longo e contínuo, é uma empresa para toda a vida. Exige um longo período de instrução, que começa na juventude, pressupõe a conquista da maturidade, através do exercício continuado de uma profissão e dos deveres de cidadania e obriga ao exercício continuado do respeito pelos ritos e pelas regras. Um homem só é digno de ser professor quando consegue saber o que é novo, mantendo vivo o que as gerações anteriores construíram. A aprendizagem da moral exige reflexão, hábito de seguir a via recta e o contacto com exemplos de pessoas virtuosas. Só o exemplo e o hábito, não é suficiente: "se uma pessoa aprende através das outras mas não pensa, essa pessoa pode ficar confusa. Se, por outro lado, uma pessoa pensa mas não aprende através dos outros, ela estará em perigo" (Os Analectos, Livro II, 17). O amor filial, o respeito e a reverência para com os pais, ocupam um lugar central na moral de Confúcio. É na família que a criança recebe a primeira instrução, é lá que ela se inicia nos ritos e que desenvolve os primeiros hábitos. Ser filial não é apenas assegurar a subsistência dos pais na velhice. É sobretudo ser reverente para com eles. Respeitá-los, obedecer-lhes e mostrar reverência: "enquanto os teus pais forem vivos, obedece aos ritos servindo-os; quando eles morrerem, obedece aos ritos sepultando-os; obedece aos ritos fazendo sacrifícios em sua honra" (Os Analectos, Livro II, 16). Outra noção essencial à moral confuciana é a reserva, a qual se aproxima bastante da noção aristotélica de moderação e de justo meio. Evita os extremos e afasta-te dos excessos. Em caso de dúvida, é preferível optar pela frugalidade do que pela extravagância. Reserva no falar, moderação nas acções, tolerância quando se está numa posição de poder, reverência para com os ritos e os mais velhos, benevolência para com os fracos, obediência aos pais e rectificação dos erros, tais são as qualidades da pessoa nobre, isto é, da pessoa moralmente educada. Coragem, tolerância, dedicação e humildade são outras qualidades a ter em conta. Há três coisas que definem o homem nobre: "ficar isento de violência ao mostrar um semblante sério, aproximar-se de ser digno de confiança por apresentar uma expressão correcta no seu rosto e evitar ser rude e irracional por falar em tons próprios" (Os Analectos, Livro VIII, 50). A tolerância implica ser capaz de rectificar o caminho quando este se desvia da via recta. Reconhecer os erros e emendá-los. Pedir conselhos a quem sabe mais do que nós e é mais experiente. A coragem é uma qualidade que se deve ter na medida certa. Em excesso é temeridade e daí ao ódio vai um passo curto. O ódio impede a benevolência e provoca comportamentos desregrados. A congruência surge como outra qualidade prezada por Confúcio. Graças a ela, "o homem de inteligência nunca tem duas mentes, o homem de benevolência nunca se preocupa; o homem de coragem nunca tem medo" (Os Analectos, Livro XIX, 59). A reserva no falar e no vestir são. igualmente, características do homem nobre: "na corte, quando falava com os conselheiros de posição inferior, ele era afável; quando falava com conselheiros de posição superior, era franco, embora respeitoso. Na presença do seu senhor, o seu comportamento, embora respeitoso, era composto" (Os Analectos, Livro X, 61). Mais à frente, no Livro XIV, afirma: "O meu Mestre apenas falava quando era altura de o fazer. Assim as pessoas nunca se cansavam de ele falar. Ria apenas quando se sentia feliz. Assim as pessoas nunca se sentiam cansadas do seu riso. Aceitava apenas quando achava que era correcto aceitar. Assim as pessoas nunca se cansavam de ele aceitar". A reserva e a parcimónia são duas qualidades centrais no homem moralmente educado. A benevolência é a qualidade maior dos justos: "regressar à observância dos ritos através da superação do ego constitui benevolência. Se, durante um único dia, um homem pudesse regressar à observância dos ritos através da superação de si próprio, então todo o Império consideraria que a benevolência era sua. No entanto, a prática da benevolência depende da própria pessoa, e não dos outros" (Os Analectos, Livro XII, 73). O homem benevolente é respeitoso e parco em palavras. Nada mais estranho a Confúcio do que a máxima: Quem o seu inimigo poupa, às mãos lhe morre". Face aos que optam pela desobediência, intolerância e indisciplina, Confúcio afirma: "os homens que rejeitam a disciplina e, no entanto, não são rectos, os homens que são ignorantes e, no entanto, não são cautelosos, os homens que são destituídos de habilidade e, no entanto, não são dignos de confiança, ultrapassam bastante a minha compreensão" (Os Analectos, Livro VIII, 52). E no livro XIX de Os Analectos, Confúcio acrescenta: "eu não posso fazer nada com o homem que concorda, mas não se rectifica, ou com o homem que está satisfeito, mas não se reforma". O homem de carácter sabe ser perspicaz e previdente. Quando um homem é capaz de resistir à difamação e às lamentações, o homem mostra-se perspicaz. Mas ser perspicaz é, também, ser capaz de aceitar o seu lugar na sociedade. Esta aceitação do lugar que cabe a cada um na estrutura social, definiu-a Confúcio da seguinte forma: "deixem o dirigente ser um dirigente, o súbdito um súbdito, o pai um pai, o filho um filho" (Os Analectos, Livro XII, 76). Sobre a benevolência dos governantes para com o povo comum, Confúcio afirma: "ao administrar o teu governo, que necessidade há que tu mates? Deseja apenas tu próprio o bem e o povo comum será bom. A virtude do nobre é como o vento; a virtude do homem pequeno é como a erva. Deixai o vento soprar sobre a erva e é certo que ela se dobre" (Os Analectos, Livro XII, 77). E, um pouco mais à frente, dirá que a benevolência é amar os nossos semelhantes. O respeito pelos outros constitui outra qualidade do homem nobre. A capacidade para se colocar na perspectiva dos outros, tão cara aos modelos cognitivistas da educação moral, definiu-a Confúcio da seguinte forma: "não imponhas aos outros o que tu próprio não desejas" (Os Analectos, Livro XV, 99). Nestas palavras, Confúcio revela bem o seu optimismo moral e o sentido reformador de quem acredita na capacidade da educação e da reflexão para reformar o homem e conduzi-lo no caminho da rectidão moral. Convém ter presente que Confúcio viveu numa época politicamente conturbada, marcada pela corrupção nas elites governantes e por guerras entre os senhores feudais. Esse ambiente caótico foi fértil na expansão do desregramento moral entre a população e provocou um aumento da criminalidade e da miséria. As referências constantes, nas páginas de Os Analectos, ao regime do duque de Chou e à sociedade reinante no estado de Lu, remetem-nos frequentemente para críticas ao desregramento moral, cobiça, ambição desmedida e império da desonestidade. Em oposição, Confúcio clama, com frequência, pela necessidade de levantar os rectos, colocando-os acima dos desonestos, para tornar os desonestos rectos. Confúcio chama a atenção para o poder do exemplo na educação moral. Em resposta a um
conselho pedido por Chi Kang Tzu, sobre a maneira de acabar com os ladrões, Confúcio não receia responder que " se tu próprio não fosses um homem de desejos, ninguém roubaria, mesmo que roubar trouxesse recompensa" (Os Analectos, Livro XII, 77). O que Confúcio quis dizer é que se os governantes não roubassem, haveria mais honestidade entre o povo. No Livro XIII, explicita, um pouco melhor, o papel do exemplo na educação moral: "encoraja o povo a trabalhar bastante, estabelecendo tu próprio um exemplo. Tzu-lu perguntou mais. O Mestre disse: não deixes que os teus esforços afrouxem...Determina um exemplo que os teus oficiais sigam; mostra brandura para com os ofensores menores e promove homens de talento"(Os Analectos, Livro XIII, 80). Um pouco mais à frente, afirma: "quando aqueles que estão acima amam os ritos, ninguém de entre o povo comum ousará ser irreverente; quando amam o que está certo, ninguém de entre o povo comum ousará ser insubordinado; quando eles amam a probidade, ninguém de entre o povo comum ousará ser insincero...Se um homem é correcto em si mesmo, então haverá obediência sem que sejam dadas ordens; mas se ele não é correcto em si próprio, não haverá obediência, mesmo embora as ordens sejam dadas" (Os Analectos, Livro XIII, 81). É fácil levar um povo inteiro a desviar-se da rectidão moral. Difícil e moroso é conduzi-lo de novo à via da rectidão: "mesmo com um verdadeiro rei, é certo que a benevolência demora uma geração a tornar-se uma realidade" (Os Analectos, Livro XIII, 82). Como é que Confúcio define uma pessoa moralmente educada? A moralidade é a matéria-prima do nobre e a nobreza de carácter vê-se pela observância dos ritos, pela modéstia e humildade no agir, pela moderação nas palavras e pela constância das qualidades. O homem educado é íntegro, benevolente, obediente e respeitador. A pessoa moralmente educada mostra respeito, é tolerante e é generoso: "se um homem é respeitoso, não será tratado com insolência. Se é tolerante, quererá vencer a multidão. Se é digno de confiança na palavra, os seus semelhantes confiar-lhe-ão responsabilidade. Se é rápido obterá resultados. Se é generoso, será suficientemente bom para ser posto numa posição acima dos seus semelhantes" (Os Analectos, Livro XVII, 110). Um nobre, isto é, uma pessoa educada, nunca esquece o que é correcto, dá primazia à justiça face ao lucro e é reverente nas situações que exigem reverência. O nobre inspira respeito, mas não é feroz, faz-se respeitar, mas não é arrogante, é firme nas suas convicções, mas corrige os erros cometidos, é generoso sem que isso lhe custe, é flexível, mas nunca negligencia as suas maneiras, é elogioso para com os bons, mas piedoso para os que erram, faz amigos com os que lhe merecem a amizade, mas afasta-se dos que não são adequados. E há situações que a pessoa moralmente educada não aprecia: "ele não aprecia aqueles que proclamam o mal dos outros. Não aprecia aqueles que, estando numa posição inferior, difamam os seus superiores. Não aprecia aqueles que, embora possuindo coragem, lhes falta o espírito dos ritos. Não aprecia aqueles cuja determinação não é temperada pela compreensão" (Os Analectos, Livro XVII, 114). Enfim, a educação, na perspectiva de Confúcio, é um processo sem fim, a exigir o aperfeiçoamento através da aprendizagem, de forma a que a pessoa com nobreza de carácter possa apreciar as cinco excelentes práticas e seja capaz de afastar as práticas malévolas. E o que são as cinco excelentes práticas? Confúcio afirma no Livro XX, de Os Analectos: o nobre é generoso sem que lhe custe algo, faz trabalhar bastante os outros sem se queixarem, tem desejos sem ser sôfrego, é casual sem ser arrogante e inspira temor sem ser feroz. E o que são as práticas malévolas? Impor a pena de morte sem primeiro tentar reformar a pessoa, esperar resultados sem primeiro dizer como se faz e insistir num limite de tempo para cumprir uma tarefa sem dar o tempo necessário.

A filosofia de Confúcio estabelece as bases das relações sociais entre as pessoas e entre as instituições. As "seis relações" dão expressão a essa base e fundamentam-se nas relações que os pais devem estabelecer com os filhos e, por isso, são todas variações do amor filial, ou o respeito e veneração dos filhos para com os pais. Originalmente, as "seis relações" incluem três conjuntos: os pais e os filhos; o marido e a esposa; o irmão mais velho e o irmão mais novo. Tomando como base aqueles três conjuntos de relações, é possível conceber uma infinidade de outros, tais como: professor e aluno; amigo e amigo; ancião e jovem. Emcada uma destas relações, o membro superior, os pais, os professores ou os irmãos mais velhos, têm o dever de benevolência e têm a responsabilidade de cuidar do membro subordinado e este tem o dever de obediência. A única excepção poderá ser a relação entre amigos, a qual pode estabelecer-se na base da igualdade, a não ser que um deles seja mais velho do que o outro. A atitude reverencial e o dever de obediência do membro subordinado face ao membro superior só se justifica enquanto este observar o dever de benevolência e cumprir a responsabilidade de cuidar do subordinado. Uma vez que a noção de obediência, em Confúcio, é sinónimo de fazer o que está certo, a verdadeira obediência aos pais ou aos irmãos mais velhos significa a recusa em obedecer a ordens injustas e moralmente incorrectas. Governantes injustos e corruptos não merecem a obediência dos seus súbditos. Nestes casos, Confúcio aceita que os súbditos se revoltem contra os governantes corruptos.

Central no pensamento de Confúcio é a crença numa ordem moral cósmica. Através da reflexão e da educação, é possível a qualquer um a distinção entre o bem e o mal.

Em conclusão, a filosofia de Confúcio oferece-nos uma ética, uma política e uma arte de viver, de simples compreensão: amar os outros, honrar os nossos pais, fazer o que está certo em vez de agir por interesse, respeitar a reciprocidade, isto é, "não faças aos outros aquilo que não queres para ti", dirigir e comandar através do exemplo moral e não pela violência ou pela força...

Crítica
O Confucionismo é uma filosofia que mantém uma enorme influência em países como Taiwan, Singapura, Coreia do Sul e, de uma forma quase clandestina, na República Popular da China. Nas comunidades sino-americanas, a sua influência é, também, muito grande. A filosofia de Confúcio e de alguns do seus seguidores, nomeadamente de Mencius, são objecto de estudo nas Escolas de Humanidades e de Ciências Sociais de muitas Universidades dos Estados Unidos da América e Os Analectos são leitura obrigatória nas escolas secundárias de Taiwan. Na China, apesar da enorme repressão que o regime comunista exerce sobre o povo chinês há cinco décadas, Confúcio continua a ser considerado como o maior dos sábios chineses e as suas cinco virtudes - caridade, justiça, propriedade, sabedoria e lealdade - continuam a ser apreciadas como condição necessária para o auto-esclarecimento e a melhoria da pessoa. O nascimento de Confúcio continua a ser celebrado pelos chineses como uma data festiva e, em Taiwan, é considerado feriado nacional. Confúcio desenvolveu a ideia de que o Governo justo tem de ser impregnado de ética. A política e a ética têm de andar associadas para que a justiça prevaleça. A educação para todos, ao longo de toda a vida, é um conceito central no pensamento confuciano e o facto de as comunidades chinesas no estrangeiro darem tanta importância à escola e à educação talvez se explique pela força da tradição confuciana. A influência do pensamento de Confúcio foi tão grande que, durante muitos séculos, a China foi governada por uma meritocracia, recrutada através de exames públicos. A ideia de que o Governo e a administração da coisa pública devem estar nas mãos dos mais instruídos e dos mais competentes, tão cara a Confúcio, continua a ter enorme influência em países como a Coreia do Sul, Singapura e Taiwan. O respeito pelos mais velhos e o amor aos pais - tão caros às comunidades chinesas espalhadas pelo Mundo - são, sem dúvida, uma herança da tradição confuciana. O gosto pelo trabalho, o apreço pelo investimento e pela poupança e o amor à escola constituem traços comuns às comunidades chinesas e explicam, em parte, o sucesso obtido por esses países na qualificação dos recursos humanos e no desenvolvimento das suas economias.

É possível, no entanto, colocar algumas reservas à ética confuciana. Uma delas é a desvalorização do indivíduo face à comunidade. Outra, é a tendência para o apagamento das diferenças, face ao poder tradições, da hierarquia e das regras. Podemos perguntar se esta filosofia não favorecerá o desenvolvimento de um pensamento convergente, uniforme e conformista e não abafará a criatividade e a inovação, tão necessárias a um Mundo caracterizado pela mudança e pela incerteza. Será que a doutrina de Confúcio, tão apostada na conservação das tradições, dos ritos e das hierarquias, ainda faz sentido numa sociedade onde a tecnologia e a ciência avançam tão rapidamente? Fará sentido um tal esforço para conservar as tradições, numa época de crescente mobilidade geográfica, social e cultural? Poderá o pensamento de Confúcio resistir à crescente atracção do multiculturalismo, da defesa da especificidade das minorias culturais e étnicas e do respeito pelos estilos de vida minoritários? Será o confucionismo um entrave à crescente emancipação das mulheres e ao aparecimento de modelos de família alternativos? Ou será que Confúcio pode, ainda, constituir um refúgio certo para a desordem crescente do Mundo e para a anarquia emergente nas relações interpessoais? Pode a ética confuciana constituir um entrave ao aumento da corrupção, à opressão dos fracos, à tirania dos governos e ao aumento das desigualdades sociais? Pode a ética confuciana e a sua aposta na estabilidade, na obediência aos ritos e no respeito pelas tradições, ajudar a colocar uma ordem na crescente desordem amorosa? Pode a sua ênfase na defesa da benevolência, da ordem, das regras, da obediência e da família constituir um antídoto para a crescente desordem familiar, com o seu cortejo de maus tratos nas mulheres, abuso das crianças, solidão e abandono das responsabilidades? Será que as sociedades ocidentais foram longe demais no alargamento dos direitos e no encurtamento das responsabilidades? A verdade é que os países e as comunidades onde a influência da ética de Confúcio é grande conhecem menores taxas de criminalidade, menores taxas de divórcio, mais elevados níveis de educação, menos desemprego e mais estabilidade social. Mas será que o preço que pagam é a falta de liberdade e o apagamento das diferenças face ao império da norma, da regra e das tradições? Valerá a pena pagar esse preço? Estamos perante um debate necessário. Contudo, estou em crer que a influência de Confúcio não irá parar de crescer e irá alastrar às sociedades ocidentais como resposta para aqueles que procuram mais segurança, mais estabilidade, mais justiça e mais benevolência. Há cada vez mais pessoas, nas nossas sociedades ocidentais, que lamentam a crescente desumanização das relações interpessoais, que criticam a maneira como as novas gerações tratam os idosos, que não aceitam o alastrar da ética da irresponsabilidade e que querem resistir a mudanças que colocam em perigo o equilíbrio das famílias e a integridade das comunidades. Para todos aqueles que temem o crescimento do individualismo, do hedonismo e do egoísmo social, a ética confuciana é um terno refúgio e é uma alternativa que reconforta e marca um caminho.

Referências
Confúcio.(as/d).Os Analectos. Lisboa. Publicações Europa-América
Confúcio.(1991). Conversações. Lisboa. Editorial Estampa